(ARAKAN)
Dogen Zenji
Tradução de José Fonseca
Veiculado em 22/01/2005
Consomem-se todos os maus pensamentos, cortam-se as paixões, o mérito da iluminação é possuído, desfaz-se a ilusão e emerge a completa liberdade da mente. Este é o Caminho de um grande arhat, estágio último do aprendiz do Caminho de Buda e quarto estágio da prática hinayana – do arhat budista.
“Todos os maus” é como o cabo quebrado de uma concha. Embora o mal esteja feito há muito tempo, ele é consumido e um verdadeiro cabo surge em vez dele na sua forma original. “O mérito da iluminação é possuído” é a aparência da coisa mais importante. “Desfaz-se a ilusão” e não se esconde em lugar nenhum nas dez direções do universo. “Emerge a completa liberdade da mente” deve ser entendido como “alto é por si mesmo alto, baixo é por si mesmo baixo.” Portanto, temos “muros, lages e pedras.” “Completa liberdade” é a atividade total da mente. “Cortam-se as paixões” significa que originalmente não há nódoas. Nódoas obstruem nódoas e não podem ocorrer.
Poder espiritual, sabedoria, meditação, proclamação da lei, instrução, radiância, tudo de um arhat fica incomparavelmente além de ações dos ímpios e demônios. Os sutras dizem que arhats podem ver cem mundos de Buda. Essas coisas não podem ser vistas por pessoas comuns. É o mesmo princípio, “Achava que estrangeiros tinham barba ruiva, agora sei que homens de barba ruiva são estrangeiros.” Entrar em nirvana é mergulhar nas ações do dia-a-dia e levar a vida naturalmente. Assim, pode-se dizer que a mente serena do nirvana é inevitável. Encontrar a essência do arhat é tornar-se um arhat; se ainda não encontramos a essência do arhat não podemos, nós mesmos, ser verdadeiros arhats.
Um velho sutra diz, “Hoje nos tornamos verdadeiros arhats. Com a voz do caminho budista podemos proclamar a lei para que todos os seres ouçam. “Que todos os seres ouçam” quer dizer nossas ações devem ser todas a voz de Buda. Isso não é apenas para os budas e seus discípulos. Qualquer um que possua consciência, inteligência, pele, carne, ossos e tutano pode fazer “que todos os seres ouçam”. Dizem que consciência e inteligência se estendem aos continentes, terras, grama, muros, lages e pedras. Folhas que caem, flores que desabrocham e o vaivém de vida e morte também podem fazer que outros ouçam a voz de Buda. “Que todos os seres ouçam” nos mostra que não devemos apenas ouvir palavras através dos ouvidos.
Buda Sakiamuni disse, “Se meus discípulos se dizem arhats ou pratyekabudas mas ainda não ouviram ou aprenderam o que os budas ensinaram aos bodisatvas, eles não são meus discípulos, nem arhats, nem pratyekabudas.”
“Ensinaram aos bodisatvas” significa “Só eu e todos os budas do universo sabemos” e “Só Buda transmite Buda.” Domine isso e depois instrua com base no soho jisso e na iluminação perfeita e suprema. Assim, o que budas e bodisatvas dizem é igual ao que arhats e pratyekabudas dizem. A razão disso é que eles sabem que budas e tatagatas apenas instruem bodisatvas.
Diz um velho sutra, “Nos sutras dos sravakas há os chamados arhats que chegaram ao patamar dos budas.” Esta frase certifica o caminho budista. Não se trata apenas de uma explanação acadêmica do abidarma, mas sim de uma regra do caminho budista. Temos de estudar o princípio de “Os chamados arhats que chegaram ao patamar dos budas” e “Os que chegaram ao patamar dos budas são chamados arhats.” Fora do nível de um arhat nada mais existe. Além disso, há iluminação suprema? Fora da suprema e perfeita iluminação nada mais existe. Há quatro tipos de prática e seus efeitos? Quando um arhat alcança todos os darmas chegou a hora do ilimitado caminho budista – é “não mente, não Buda, não coisas.” Nem o olho de Buda pode ver isso. Não pode ser descrito como um certo tempo entre kalpas inumeráveis. Temos de aprender o poder que nos habilita a ver com visão iluminada. Aí vemos que mesmo a menor das coisas contém todas as coisas.
Buda Sakiamuni disse, “Alguns monges e monjas acham que já atingiram arhatude, chegaram sua última encarnação, e obtiveram o gol do nirvana, e portanto não buscam suprema e perfeita iluminação. São pessoas arrogantes, e se não acreditam em suprema e perfeita iluminação não faz sentido chamá-las de arhats.”
Isto é, se a pessoa acredita em suprema e perfeita iluminação ela pode ser chamada de arhat, e o Darma pode ser transmitido. Esta transmissão direta é a prática e iluminação do Darma. Realmente, chegar ao estágio de arhatude não é simplesmente estar na última encarnação e entrar no nirvana final. Buscar suprema e perfeita iluminação é buscar a visão iluminada, zazen frente parede, e abertura de nossos olhos. Embora o mundo seja sem limites, vem a livre e total atividade. Tempo é imutável, mas surgem diálogos desinibidos entre mestres e discípulos. Isto é “buscar suprema e perfeita iluminação”- ou seja, procurar um arhat. Esta busca é perfeição total.
Mestre Zen Kassan Engo disse, “Quando as pessoas antigas atingiam a iluminação iam para as montanhas, escolhiam uma caverna coberta de touceiras e moitas, e faziam comida com utensílios improvisados. Assim viviam durante dez ou vinte anos. Esqueciam completamente o mundo dos homens e eram felizes tendo deixado a poeira dele muito para trás. As pessoas de hoje não esperam viver tal vida. Simplesmente desejam permanecer anônimas, manter-se ocultas, e não fazer mais do que o necessário. Elas ficam velhas, quase só pele e osso. Vivem uma vida iluminada por elas mesmas de acordo com suas habilidades individuais. O velho carma é cortado e dissolvem-se velhos hábitos. Se detêm algum poder especial tentam passá-lo aos outros, e procuram estabelecer relações baseadas em carma. Elas aprofundam o seu treinamento, dando muitos frutos.
“Achar uma tal pessoa é como arrancar uma folha de grama no campo. Juntas, obtêm conhecimento e liberação de vida e morte, vivendo vidas fecundas em gratidão aos budas e patriarcas. Todavia, não podemos guardar tal sucesso só para nós, ainda que tentemos. É como a geada de outono que faz o fruto de primavera crescer. Esta prática beneficia a sociedade e é usada pelos que a procuram; ela cultiva o mundo sem ser capturada pelos desejos. Como poderia alguém com este tipo de prática tornar-se um monge mundano, agarrado a gente rica? Se fizesse isso, ofenderia aos leigos e aos santos, e na busca de fama e riqueza seu carma o conduziria ao inferno. Aqueles que mantêm a prática correta são capazes de viver uma vida sem desejos, mesmo estando em posições de poder; também, mesmo sem realizar grandes feitos, suas vidas são vidas de verdadeiros arhats.”
Assim, esses monges são verdadeiros arhats que deixaram a poeira do mundo para trás. Se quiser conhecer a forma de um arhat você tem de compreender isto. Não dê ouvidos aos ensinamentos equivocados de eruditos indianos sobre o abidarma. Mestre Zen Engo da China é um buda e patriarca e herdeiro do Darma da transmissão correta.
Mestre Zen Daichi do Monte Iakujo em Koshu disse, “Cada um dos seis órgãos dos sentidos – olho, ouvido, nariz, língua, corpo e consciência – é intocado por todos os darmas, existentes e não existentes.” Isto se chama possuir uma estrofe (gatha) de quatro versos ou o quarto estágio da prática. Quando os seis órgãos dos sentidos funcionam e transcendem eu e outros, a totalidade de seu mérito é imensurável. Logo, o corpo inteiro é intocado e todos os darmas existentes e não existentes são intocados. Isto se chama também de “quarto estágio”, ou seja, o estágio de um arhat.
Portanto, a realização atual dos seis órgãos dos sentidos é o arhat. Formular e manter este princípio é transcender qualquer conspurcação. A quebra desta barreira e a posse da estrofe de quatro versos é o quarto estágio. De ponta a ponta, o corpo inteiro se realiza e nada resta.
Em outras palavras: “Quando um arhat fica com pessoas comuns todo o seu ensinamento é por elas obstruído. Quando ele fica com santos todo o seu ensinamento é liberado. Precisamos saber que em todas as circunstâncias, arhats e todos os darmas co-existem. Se certificamos arhatude, isso cobre tudo.” Este é o primeiro que existiu antes de Kuo, o Buda anterior existência do tempo.
Pronunciado em Kannondori-Koshoborinji em Uji no dia 15 de maio de 1242.
(Capítulo 36 do Shobogenzo , Olho e Tesouro da Verdadeira Lei, edição traduzida por Kosen Nishiyama, Tokyo, 1988).
Fonte: http://www.chalegre.com.br/zendo/texts/index.php?id=88
[…] ó Arhat, após teres aberto tuas asas ígneas terás de passar pela prova do Guardião do Umbral do mundo […]